sexta-feira, 23 de junho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pobres jovens universitários

Um destes dias recebi uma mensagem de uma antiga professora de inglês, que tinha descoberto as minhas crónicas na Visão online. O elogio que me fez e que me deixou babada até ao queixo foi "You sound like a British woman who writes in Portuguese". Dizia-me ela que tinha de tal forma gostado, que levou a crónica intitulada "A palavra acabada em alho" para que os alunos dela a traduzissem na aula. 

Passado o choque das declarações, arrependi-me de não lhe ter pedido o resultado deste exercício absolutamente insano proposto a um grupo de jovens universitários de uma Pós-Graduação em Tradução, cujo único erro foi escolherem este nosso curso coitado. Quer dizer, não bastava o masoquismo de andarem a estudar para tradutores, sabendo que vão ser explorados, das duas uma, ou por agências que vão pedir ao cliente final €0,07 a palavra, pagando-lhes depois €0,02 (nos raros casos em que efetivamente lhes pagarão), ou por serviços estatais, como os tribunais, que os chularão até à medula, pagando-lhes €0,03 por palavra por traduções jurídicas com termos supimpamente técnicos, que lhes serão pagas a 90 dias, na melhor das hipóteses? 

Não me entendam mal, adoro o que faço e sou dos poucos tradutores que têm o privilégio de trabalhar para uma entidade patronal decente, mas quem vem para isto seguramente não almeja uma carreira fulgurante nem riqueza.

Entretanto, vou-me roendo de curiosidade, sobretudo pela tradução do título, a qual, espero sinceramente, não tenha sido "The word ending in garlic". Ou, se foi, que a criatura tenha chumbado.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Divórcios de Santo António

O Vereador da Câmara Municipal de Lisboa com o Pelouro das Efemérides Parvas Que Só Servem Para Irritar Quem Só Quer Ver TV, Digamos, Normalzinha comunicou aos munícipes que se iniciou o prazo de inscrição para os Divórcios de Santo António, que decorrem exatamente um mês após os Casamentos, a saber, no dia 13 de julho. É elegível apenas quem tenha contraído matrimónio no dia 13 de junho e tenha chegado à conclusão que casar com outros 340 marmanjos o/a aleijou emocional e mentalmente de forma irreparável. 

Os restantes critérios de elegibilidade são os seguintes:
a) Alergia e/ou aversão a sardinhas. Exclui-se da presente alínea quem, contudo, possui a habilidade de comer o nobre clupeiforme de faca e garfo;
b) Documento oficial assinado por um psiquiatra inscrito na Ordem alegando insanidade temporária à data do matrimónio antonino;
c) Comprovada incapacidade para lidar psicologicamente com o facto de o seu casamento ter sido transmitido em canal aberto e estar agora disponível para eventuais futuras chantagens;
d) Manifesta inaptidão para cumprir o ponto 4.1 do contrato dos casamentos de S. António, que estabelece que as partes contratantes terão de receber em sua casa, pelo menos trimestralmente, os restantes 340 compinchas de celebração para alegre caturreira envolvendo confeção manual de queijo fresco, sessões de renda de bilros, cultivo de manjericos na marquise e enormes bacanais;
e) Print screen do respetivo perfil nas redes sociais, demonstrando como houve pudor em não partilhar absolutamente nada relacionado com o evento;
f) Comprovativo em como a bebedeira que o/a levou a inscrever-se nos Casamentos de S. António já passou; 
g) Declaração assinada pelo próprio, manifestando profundo arrependimento, anexando programa de sevícias/serviço cívico, em expiação pela palermice perpetrada.

Os interessados devem dirigir-se à secretaria do Departamento das Efemérides Parvas Que Só Servem Para Irritar Quem Só Quer Ver TV, Digamos, Normalzinha, preencher o formulário correspondente e passar pela tesouraria para levar duas lambadonas bem assentes no focinho.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Superman

- Máinovo, a mãe ouviu um estrondo durante a noite. Caíste da cama abaixo? 
- Siiiiiiiiiim!
- Mas o que aconteceu?
- Então, estava a dormir e fui-me chegando, fui-me chegando e... AIBILI VAI CÃ FLAIIIIII!!!!!

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Chamar os piolhos pelos nomes

Urge deixarmo-nos de eufemismos para nos referirmos às questões dos miúdos. Por isso, a minha crónica desta semana na Visão online deixa uma alternativa às comunicações esterilizadas das direções das escolas quando, no fundo, o que nos querem dizer é: "Venha mas é buscar o piolhoso do seu filho e fumigue-o à bruta." É ir aqui.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Estou a ficar velha, catano.

Ele às vezes tem disto. Vem mais sério da escola, mais circunspecto, pleno de reflexões do alto dos seus seis anos. Naquele momento que temos para nós antes de Máinovo se deitar é quando vêm ao de cima os seus pensamentos menos infantis e, arrisco dizer, mais maduros e filosóficos:
- Mãe, sabias que tu tens um fio invisível, que sai daqui (aponta para o meu peito) e que te liga a mim? Tu até tens dois, porque também tens um que te liga ao mano. 
- É verdade! (❤️)
- Sabes, eu estive a pensar: quando fores para o céu, o fio parte-se e vais deixar-me cá em baixo sozinho...

Nesta altura, foi-me imensamente difícil controlar as lágrimas, que vinham cara abaixo com toda a velocidade. Tentei recompor-me:
- Não, filho, eu depois vou ser uma estrelinha e vou estar sempre lá em cima a olhar para ti e a proteger-te.
- Mas como é que me vais proteger dos ladrões? E das pessoas más? E dos meninos que não me deixam jogar à bola? 

Bem sei que nesta altura podia ter dito uma série de coisas, falado no irmão, na restante família que sobrará quando eu me for, tranquilizá-lo quanto ao tempo que (espero eu) ainda temos juntos, mas caramba, não sei se foram as hormonas se o camandro, tive de pedir um time-out na conversa e sair do quarto para me recompor. 

Senhor meu Marido, sempre aquele poço de sensibilidade, olha para o meu estado e pergunta:
- Estiveste a ver a Anatomia de Grey?